

de Heiner Müller
REGRESSA
EM SETEMBRO
DE 2026
Contornos da dramaturgia
O mito de Medeia acompanhou Heiner Müller durante mais de trinta anos, até ao fim da sua vida de escritor. A personagem surge em fragmentos escritos logo após a guerra.
O trabalho teatral de H. Müller esteve frequentemente envolvido com os textos clássicos, gregos e shakespearianos, com a dor e a morte neles contidos. A sua marca pessoal consiste na remoção do ponto de vista moral, do alívio catártico, e das unidades de tempo e espaço. Mas o seu pós-modernismo não é a aplicação formal de um estilo ou de um pressuposto estético. É a composição química da obra. Por isso a fria descrição das influências e das transmutações a que a submete se distanciam dos textos dramaticamente convencionados.

Heiner Müller entende como poucos a essência do mito na Antiguidade trágica e a viabilidade da sua permanência entre nós. A intensidade do mito perde-se na reescrita e na alegorização. Sob a limpeza e o utilitarismo da linguagem, sob o desejo de clarificação ou de transposição para o contemporâneo, está somente deitado o esqueleto, a história, o que o público grego conhecia e que não era aquilo que o atraía para o espetáculo.[1]
H. Müller intenta pôr em palco a outra coisa, o ambiente, o uivo, o sentimento coletivo do horror (defende o emprego desta palavra, tradução de «phobos», em vez de «medo», que é uma versão suave). É uma energia desestruturada, uma carne, uma voz, um amontoado, anteriores ao pensamento individual e ao discurso linear e pontuado. H. Müller recua até ao «pathos» e menospreza o «logos».
[1] «Não consigo de qualquer modo fazer esse tipo de coisas, vestir à moda antiga um problema actual».

Müller considera os mitos como «agregados» que transportam energia, «experiências coletivas coaguladas», um «esperanto, uma língua internacional que não é apenas compreendida na Europa». Trabalhou o texto Medeia Material durante longos anos. É o painel central de um tríptico dedicado aos Argonautas, aos desastres, à crueldade, à desordem e à sujidade das guerras e dos guerreiros de qualquer ocupação. No fim do primeiro texto, Margem Abandonada, surge Medeia, a que é sábia em venenos. Ela vai assumir o protagonismo no texto seguinte.
H. Müller declara que se inspirou em três Medeias: a de Eurípides, fundadora e irrepetível, a de Séneca, provavelmente escrita só para ser lida, dura, sem corpo, e a de Hans Henny Jahn, estreada em 1926, uma Medeia negra. Considera que Medeia e os Argonautas simbolizam a passagem do mito à história, são o momento original da colonização organizada. E acima de tudo, ele vê no mito a possibilidade de obrigar os seus contemporâneos a refazerem a sua posição no mundo, abandonando soluções unívocas.

Medeia é o «material» usado por Jasão. Certas adaptações inglesas desta peça têm como título Material for Medea. Mas o material não é o conjunto de recursos cénicos e linguísticos com o qual Heiner Müller constrói a sua peça. O material é Medeia, Medeia atuante, o material é o ódio que enche o palco e que gera o volume do seu corpo e rompe o ar com a vibração da fala.
O dramaturgo não permite que alguém esqueça que o que está a passar-se é uma encenação. Medeia chama «atores» aos filhos e vangloria-se com o terrível espetáculo que montou. Também aqui ecoa a essência grega, a perceção pelo espectador de que o não-real do teatro é mais arrasador do que o real.

A peça reproduz as coordenadas nobres do mito: o amor-paixão que submete a fêmea e a avilta a ponto de a tornar traidora e assassina do seu clã, a civilização ocidental que se encaminha para a racionalidade totalitária e entende a conquista como ação natural das raças superiores. Mas, ao contrário das versões redentoras que intentam dar medida humana e desculpa humana para o filicídio, a peça de Müller mantém intacta uma sanguinolência primitiva. O gosto de morder, de abocanhar e de arrancar a carne de outro rosto, já trabalhado em Ciment, ainda mora nas gengivas domesticadas. A primitiva cumplicidade com a natureza, o animal guardado nos sentidos e na capacidade de defesa, uma sabedoria anterior à razão e que perdura no mistério do teatro, tudo Medeia põe em jogo na sua «crise».




Fotografias de Cena ©Tânia Cadima
Alterar o sistema da linguagem e alterar as leis da geração está ao seu alcance. Inverte o parto, põe os filhos dentro. O «eu» que ela enuncia muita vez é a afirmação não de uma identidade, que vemos dissolvida, mas de uma existência que se quer estranha a categorias. Ela deseja não ser homem nem mulher, partir o mundo ao meio e habitar nesse nada. A «pólis» arde, deixa de existir como organização e Jasão perde o rosto no final.
Para Heiner Müller, Medeia não é, pois, a reescrita de uma história ou de um mito, mas a convocação de uma força emotiva que parecia perdida, o balbuceio de uma linguagem que se organiza para desorganizar a moribunda relação dos humanos. Ela ouve a sua Cólquida gritar e o que a sua voz diz é esse grito.
«Que os espectadores compreendam ou não esta peça é um problema do encenador», diz Müller. De facto, não se trata de compreender, mas de queimar a pele ao seu contacto.
Hélia Correia




Fotografias Promocionais ©Tânia Cadima
Ficha artística e técnica
texto
Heiner Müller
tradução
Maria Adélia Silva Melo
e Jorge Silva Melo
dramaturgia e encenação
Mário Trigo com Jaime Rocha
interpretação
Cirila Bossuet
Miguel Coutinho
Philippe Araújo
desenho de luz
Mário Trigo
cenografia
Pedro Silva
figurinos
Catarina Graça
design gráfico, fotografia e teaser
Tânia Cadima
gestão de apoios
Joana Ferreira
criação e produção
HIPÉRION Projeto Teatral, 2025




