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UMA ILHA – o diálogo meliano de Mário Trigo


HIPERION FILOCTETES HEINER MULLER


Contornos da dramaturgia


Para que servem os mortos? O que é o Poder? Qual a sua natureza? Que relação há entre o Direito e a Justiça? Porque lutamos pela Liberdade?

Estas interrogações são levantadas na peça UMA ILHA o diálogo meliano. Trata-se de um texto construído a partir da obra História da Guerra do Peloponeso, do historiador grego Tucídides, em que este relata, em pequenos diálogos e narrativas curtas plenas de dramaticidade, a luta fratricida entre atenienses e espartanos que teve lugar na Grécia, no tempo de Péricles, séc. V a.C. A peça centra-se no episódio conhecido por Diálogo Meliano, no desenrolar do qual os cidadãos da ilha de Melos, no Mar Egeu, ao largo de Creta, optam pela neutralidade, resistindo desse modo ao cerco levado a cabo por Atenas, contrariando o poder fiscal imposto pela cidade mãe e combatendo as ambições imperialistas dos atenienses que desejavam controlar a totalidade do Mar Egeu, as suas ilhas e estreitos, por onde passava todo o comércio naval, nomeadamente o abastecimento de cereais, decisivo para a vida de Atenas.

Para que servem os mortos?

Um espectro assola a Europa, é uma luta que traz em si um coveiro. A voz de Friedrich Engels aparece nas linhas ditas pelos atores, num palco que é agora uma ilha no Mar Egeu, uma ilha no mundo, a nossa ilha à procura de uma terra sem amos, sem deuses, sem águias a comer-nos o fígado, inspirada numa ilha que viveu quase 30 anos de guerra. Perguntamos: Os mortos para que servem, o que podem ainda eles fazer numa Europa que é uma noção vaga desalinhada e tantas lágrimas?

Neste Diálogo Meliano do historiador grego, em que atenienses e mélios funcionam como personagens de um drama, são colocadas questões fundamentais que dominavam a discussão da democracia ateniense, nomeadamente a natureza do poder entre as cidades-estado, a prevalência do Direito ou da Justiça, o domínio do mais forte sobre o mais fraco.


Tucídides, que foi ele próprio comandante nas forças atenienses, por isso testemunha direta do sucedido, quis deixar aos leitores vindouros um documento escrito com clareza e transparência e tentou que estas duas marcas de estilo orientassem as suas escolhas. Ele mesmo, nas suas palavras, refere que o seu texto é um tesouro, um bem para sempre, uma aquisição definitiva. É um pouco deste tesouro que esta peça, UMA ILHA, propõe levar a palco a fim de o transformar num espaço de insubmissão e de revolta, um espaço de reflexão e de opinião que sirva de tapete para essa grande ponte entre a Grécia antiga e a contemporaneidade.

Devem as relações internacionais entre estados ou cidades ser moderadas permitindo um equilíbrio de poderes? Deve vingar a neutralidade da ilha de Melos no decurso da guerra ou deve a cidade mais forte, neste caso Atenas, subjugar a frágil ilha que lhe resiste? Estamos perante uma questão moral e política. E hoje, como se pode responder a esta pergunta? Com negociações, com diplomacia, com armas? Os atenienses, neste Diálogo Meliano, eram claros, dizendo que o direito, nos tempos que correm, é apenas aplicável aos que se igualam em poderio, enquanto o mais forte faz o que quer e o fraco o que deve. Os Mélios, por sua vez, reclamam que aceitar a submissão é entregarmo-nos ao desespero, enquanto a ação ainda nos dá a esperança de podermos permanecer erguidos.


O teatro não existe para tomar partido por uma das partes, existe para colocar em confronto ideias essenciais para reflexão do espectador. Não é neutralidade, é discussão de ideias, é colocar os pratos na mesa dos atores e, em conjunto com os espectadores, pensar, como Tucídides, que diz que se um país caminha para a ruína, também o homem mais forte, o mais próspero, acabará arruinado.


Para que servem os mortos?

Seremos nós os donos dos nossos próprios atos? Vivemos na esperança de um mundo que seja nosso, levamos na mochila os sonhos de Homero, o desespero de Goya, a loucura de Nietzsche, provamos do fruto de Adão, sofremos com Prometeu e ansiamos ser Pégaso, Ulisses, Filoctetes, desejamos ser atenienses e espartanos ao mesmo tempo. Levamos os textos antigos connosco para cima das tábuas e confrontamo-los com a modernidade, com os olhos de hoje. Como Tucídides, refletimos sobre a possibilidade de existir uma ilha, uma região, uma província, uma cidade, um estado, um país onde possamos viver em liberdade plena.

Este espetáculo resulta numa construção dramática elaborada não apenas a partir de textos antigos e modernos de referência (Ésquilo, Homero, Rimbaud, Herberto Helder...), mas também com o texto inédito que Mário Trigo incluiu, incutindo no todo um ritmo aberto ao diálogo e ao monólogo reflexivo. Um texto que fala da guerra e do mal, da sobrevivência e do amor, e nos dá um pensamento amplo sobre o que estamos a viver hoje num mundo cheio de contradições e barbárie. Traz também a esperança de uma sociedade melhor através de vozes eternas, como a do Velho, do Marinheiro, do Lavrador, do Homem e da Mulher e a dos deuses.


Para que servem os mortos?

Estamos todos como Orwell, com o pescoço em sangue após ter sido atingido por uma bala na Guerra Civil de Espanha. Não nos podemos deixar ganhar pelo medo. Um soldado jovem está estendido na relva, a céu aberto, dorme ao sol, a mão sobre o peito tranquilo, escreve Rimbaud. Somos esse jovem que sonha que os cidadãos do mundo não deixarão secar os rios, queimar as florestas, dizimar os animais selvagens. Como a personagem Mulher, vinda da orla do mar, em Ésquilo, que diz ao Homem, levanto para ti as minhas súplicas, poupa a nossa cidade e depois invoca os deuses, salvai-nos a ilha.


Que lugar têm os mortos no corpo da cultura? Referimo-nos a um exercício que transporta a cultura clássica para o centro da dramaturgia contemporânea. Estas são notas para um teatro de análise.


— Jaime Rocha



Tempo de dramaturgia

Fotografias de Tânia Cadima


Tempo de ensaios

Fotografias de Tânia Cadima


O espetáculo

Fotografias de Susana Chicó


Ficha artística e técnica


Texto: Mário Trigo (sobre motivos de Tucídides) Dramaturgia: Alexandre Sarrazola, Jaime Rocha, Mário Trigo Encenação: Mário Trigo com Jaime Rocha Interpretação: Cirila Bossuet, Mário Trigo, Miguel Coutinho, Nisa Eliziário, Philippe Araújo Espaço Cénico: HIPÉRION Projeto Teatral

Figurinos: Joana Saboeiro Direção Técnica: ShowVentura Teaser e Fotografia de Cena: Susana Chicó Design Gráfico e Fotografia: Tânia Cadima Gestão de Apoios: Joana Ferreira

Criação e Produção: HIPÉRION Projeto Teatral


Espetáculos:

27, 28, 29, 30 de outubro e 3, 4, 5, 6 de novembro 2022

– na Comuna Teatro de Pesquisa, Lisboa;

​23, 24, 25 e 27 de novembro 2022

– no Teatro da Malaposta, Odivelas.


Este projeto teve o Apoio Financeiro à Criação:

República Portuguesa – Cultura / DGArtes





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