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A SECRET ABOUT A SECRET de Mário Trigo e Tânia Cadima


a secret about a secret


Contornos da dramaturgia


Este espetáculo parte do conceito da fotógrafa americana Diane Arbus que afirma ser uma fotografia um segredo sobre um segredo - quanto mais uma fotografia nos diz, menos ficamos a saber.

Esta é então a premissa para um objeto cénico que faz uso de fotografias de Tânia Cadima projetadas em tela. Entretanto, e através de textos de Mário Trigo, os atores apropriam-se de uma escrita contemplativa, com forte recurso a pulsões inconscientes, sendo por vezes automatizada, acercando-se ou afastando-se do sentido figurativo das imagens expostas.


São evocados contextos em que os intérpretes e o próprio público, num exercício comum de reflexão livre, extensiva, lúdica, partilham temáticas como a antiguidade grega, o amor que sempre envolve gerações, dúvidas e enigmas da cosmogonia, o desassossego da guerra, ou as decisões políticas que atualmente nos fazem a vida.


Tudo isto para chegarmos a questões e segredos não respondidos - apenas conversados.


Mário Trigo



Uma imagem rememorada nunca é algo pronto. A matéria de que é feita é instável, muda a cada instante. Evocar uma imagem que pertence ao passado, recuperá-la, trazê-la ao momento presente, é um exercício criativo dinâmico cujas variáveis escapam: é como tentar fixá-la numa superfície que se encontra em constante movimento. O meu trabalho é um ensaio poético que tenta dar conta deste processo.


Parte-se, então, em direção ao fundo de um arquivo de imagens fotográficas, um objeto que nos faz acreditar que é possível guardar intactas imagens-lembrança. Rapidamente se percebe que a dimensão cronológica rígida que costuma caracterizar estes objetos, quando submersos, desfaz-se. As imagens perdem a sua referência temporal e, a fronteira entre o que foi real e agora inventado, dilui-se.

 

Impregnado de subjetividade, o papel da imaginação é, aqui, determinante. Guiadas por um impulso, ora estético ora lúdico, algumas destas imagens emergem: uma proposta de leitura em que o espectador é convidado a entrar como num labirinto, sendo que é na sua própria memória que vai encontrar a chave para a saída.

 

Tânia Cadima, sobre o projeto fotográfico Clepsidra, 2014


O Espectáculo do Mundo


Que somos nós quando procuramos o poema e nos descobrimos entre a vida e a morte.

Somos o ferro, a madeira, a pedra, o lume e as cidades, as casas, os carros abandonados.

 

Zangamo-nos como Aquiles e enlouquecemos como Ajax, enquanto Isadora dança como se procurasse Antígona, Medeia, Andrómaca.

 

O seu corpo instala-se em nós como uma imagem definitiva, pela mão da fotógrafa.

Coloca-nos junto dos deuses porque o seu movimento é circular, entre ilhas, e segue-nos como uma serpente na água.


É um segredo que habita dentro de um outro segredo que somos nós sonhando na noite de Whitman, os nossos desejos, as nossas utopias, as nossas paixões, imaginando que a paz está ao virar da esquina, que a terra é um lugar seguro, que o chão grego é eternamente sagrado e bom.


Depois, deparamo-nos com o fim tenebroso de uma criança a afogar-se no mar, o poder da imagem que percorre o universo por todos os meios. Não queremos acreditar e por isso dizem-nos que é uma invenção da natureza, que as imagens trágicas são fabricadas em estúdios para nos demolir as emoções e pedem-nos para vivermos nessa grande mentira. Como se tudo à nossa volta fosse um grande espectáculo.


Passamos a ser apenas os estilhaços de uma cosmogonia visceral que definha, pensando nós que somos ainda as mãos humanas abrindo para o barro, à procura da doçura das coisas.


Andamos adormecidos dentro de um caos de colagens e de ruídos de lixo sem conseguirmos vislumbrar o fumo branco. Procuramos o segredo da alma e da paz no Inferno de Dante.


Aguardamos à beira-mar, enquanto reconstruímos o mundo dentro das cinzas como se entrássemos para o interior de uma imagem que amamos para lá ficarmos para sempre.


Jaime Rocha


Tempo de dramaturgia

Fotografias de Tânia Cadima


Tempo de ensaio

Fotografias de Tânia Cadima


O espetáculo

Fotografias de Tânia Cadima


Ficha artística e técnica


Textos: Mário Trigo Fotografias: Tânia Cadima Encenação e Dramaturgia: Mário Trigo com Jaime Rocha Interpretação: Catarina Rodrigues e Miguel Coutinho ​Consultoria do Espaço Cénico e Figurinos: Nisa Eliziário

Música sobre Motivos de: Carlos Santos Desenho de Luz: Mário Trigo Design e Fotografia de Cena: Tânia Cadima

Apoio à Montagem: Pedro Carranquinha (Musgo) Gestão de Apoios: Joana Ferreira

Produção: HIPÉRION Projeto Teatral


Espetáculos:

30 de novembro, 1, 2, 3, 7, 8, 9 e 10 de dezembro de 2024

– no C. C. Malaposta, Odivelas.


Apoio à Residência:

Centro Cultural da Malaposta

Minutos Redondos

Câmara Municipal de Odivelas


Colaboração:

Casa Jaime Rocha



Imagem cartaz ©Tânia Cadima, da série Brejo, 2013

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