

texto MÁRIO CÉU TRIGO
fotografias TÂNIA CADIMA
encenação CAROLINA FIGUEIREDO

ESTREIA
10 ABRIL – 3 MAIO 2026
Sex. e Sáb. 21h00 / Dom. 16h00
FORNO – Espaço Cultural
Rio de Mouro / Sintra
Contornos da dramaturgia
Este espetáculo, em coprodução com o Teatro Efémero, levanta o segundo painel de um ciclo de trabalho cujo propósito relaciona linguagem fotográfica e especulação poética.
Correspondência assente numa escrita contemplativa que recorre a pulsões inconscientes, por vezes automatizada, acercando-se ou afastando-se do sentido figurativo das imagens. Os intérpretes atravessam temáticas existencialistas, políticas, historiográficas… enlaçam as figuras de Aquiles e de Salgueiro Maia, veem Antero de Quental receber os dois ‘tiros’ que mataram Demóstenes, sentem-se perplexos com a posterior fragmentação da Geração de 70, fantasmaticamente sentada em pose solene nas galerias da Assembleia da República a cada aurora do dia 25 de abril. Nas traseiras de São Bento, Jaime Neves expulsa do Templo os militares da Ala Radical com o intuito de consolidar democraticamente o território do Peloponeso; alista os intérpretes para uma recruta no Regimento de Comandos.

Escrita poética, fotografia e espaço cénico. Conjugação de Carolina Figueiredo, encenação, ao arrumar as pulsões criativas de Philippe Araújo e (atriz a designar), interpretação, surgindo cenicamente desvelado um alfabeto que se constitui indexicalmente.
A cada fotografia projetada, a narrativa do espetáculo adentra um sentido prospetivo: o pensamento associa alegorias visuais, cartografa territórios de caça e persegue o significante para lá da linha de fuga. Tudo estará, presumivelmente, fotografado, imagens sobrepondo imagens, adicionando imagens: a única celebração da fotografia é a da sua própria continuação. Fotografar perdura o encanto visual.

O aparecimento da fotografia permitiu à visão do escritor enquadrar ‘fototextos’ — termo conceptual que veio desorientar poetas de adjetivação barroca. Charles Baudelaire, em 1859, de punho erguido em frente às Tulherias, denunciava que a poesia e o progresso são como dois homens ambiciosos que se odeiam mutuamente com um ódio instintivo, e quando se encontram no mesmo caminho, um deles tem de ceder. Disparate acintoso, cumprimentaram-se e caminharam juntos.
A tecnologia converteu-se em poesia imagética, ou em drama dos acontecimentos quotidianos, e apesar de imagem parada, a fotografia relacionou-se dialeticamente com a realidade corrente reforçada pelo signo linguístico que pulsa: a narratologia da fotografia.

A escrita poética, tipograficamente apresentada, confrontou o sentido figurativo do enquadramento fotográfico, depreciando-lhe os nexos causais, recusando aceções miméticas, celebrou o criador de imagens disjuntivas: flashes sobre a inventividade moderna, sepultando em propósito a pintura institucional — obsoleta.
A fotografia rompeu com o sistema académico, tutelado ou pelo Estado ou pela Eclésia, enfrentou a crítica da cultura burguesa, recebeu os golpes da opinião pública, confirmando-se, por valia própria, enquanto Arte conceptualizada; todavia, ambiguamente socorrida pela metralha da imprensa.
Massificada, a fotografia é distribuída vertiginosamente: mercadoria rentável, objeto sedutor, circula muito rapidamente, vai à lua e vem. Começam os curiosos a fotografar sabendo ser indispensável premir o botão de disparo!

André Breton, em “Nadja”, romance ou prosopoema, ilustrou o texto com imagens documentadas numa aparente correspondência entre narrativa e fotografia. Impaciente, bateu à porta de Louis Aragon, martelaram, numa Olivetti em segunda mão, imagens tiradas da cabeça do Homem Novo, escrita automática, exercício que o Partido Comunista Francês depreciou.
Muito rapidamente os surrealistas se deram conta de que a fotografia não é disposta segundo normas aferidas pela poética. Enquanto imagem parada, uma fotografia não pode constituir um relato; o seu resultado é imediato, fixo, ocorrência determinada. Ao invés, a escrita de um poema não segue um sentido literário racionalizado, controlado pelo correr de linhas dispostas em frases; avança para um ontos instável, indefinido. Resolutos, foi do aeroporto du Bourget que partiram os surrealistas para uma evangelização estilística; decisão nefasta para Trotsky: a cabeça aberta a golpes de machado.

O fotógrafo especula imagens, valida a composição fotográfica enquanto axioma artístico que solicita um olhar longo, atento, simultaneamente lento, transfigurando-se num telos de contemplação. Os académicos confundiam-se nos corredores da Sorbonne, que ‘aquilo’ não era pintura, que ‘aquilo’ não era literatura. Que ‘aquilo’ não era.
Apesar de preceitos teóricos, a fotografia foi de cornos às tábuas do Mercado; tornou-se um produto volatilizado pelos media, pelas redes sociais, uma não-coisa partilhada em espaços digitalizados, transfigurada em likes e visualizações, excessivamente circulada, deixando-se postar ad infinitum, ad absurdum, ad merdum.

Como usar fotografias que são agora outra coisa: imagens sem suporte real? Neste espetáculo procuramos introduzir alguma fricção: reunindo com os que reescreveram a vida — Marx, Freud, Darwin, Nietzsche, Salgueiro Maia, conversamos, interpretamos textos e outros materiais à mesa da dramaturgia; trabalho teatral enquanto desvio da normatividade. Pretendemos uma visão limpa do tempo que atravessamos. Que teremos de atravessar, nem que a porca torça o rabo.
Quanto mais uma fotografia nos diz, menos ficamos a saber. Nisto concordamos com a fotógrafa norte-americana Diane Arbus: necessitamos efetivamente de ver para fora do enquadramento; mais precisamos de compreender melhor. Na verdade, vamos todos compreendendo melhor, n’é?
Mário Céu Trigo
revisitação do ensaio Monocromia e Fotojornalismo nas Pinturas "Today", de On Kawara, de Jeff Wall – 1993.
tradução de Pedro Elói Duarte.

“O que sou eu?” e “O que é uma imagem?” Estas duas questões, que talvez sejam apenas uma, constituem o eixo em torno do qual tem girado o meu trabalho fotográfico.
Berenice nasce de um exercício reflexivo que procura responder a este duplo questionamento. Trata-se de um ensaio visual centrado numa dupla autorrepresentação: a minha e a do meio fotográfico. O que aqui se vê são fotografias de fotografias onde me vejo à luz de outros tempos.
A fotografia tem sido o meio privilegiado daqueles que trabalham o tema da identidade. A máscara. O espelho. O reflexo do espelho. O sujeito dividido, duplo, múltiplo, fragmentado, estilhaçado, morto. O fantasma. O simulacro. O encaixe sucessivo de simulacros. O abismo, a vertigem, a queda, o esquecimento. Tudo na fotografia aponta mais para um eu que desaparece.
A fotografia esconde-me mais do que me revela. Parece ser esta invisibilidade, esta impossibilidade de se ver, que constitui o ser na sua essência primeira.
Tânia Cadima
sobre o projeto fotográfico Berenice, 2015.

Ficha artística e técnica
texto
Mário Céu Trigo
fotografias de projeção cénica
Tânia Cadima
direção e encenação
Carolina Figueiredo
dramaturgia
Jaime Rocha
interpretação
Philippe Araújo
atriz a designar
espaço cénico
Pedro Silva
desenho de luz
Carolina Figueiredo e Mário Trigo
figurinos
o coletivo
design, fotografia de cena, teaser
Tânia Cadima
coordenação de projeto
Mário Trigo
gestão de apoios
Joana Ferreira
coprodução
Teatro Efémero e HIPÉRION Projeto Teatral, 2026

INFORMAÇÕES E RESERVAS
Bilhete normal: 7€
Bilhete com desconto: 5€
(<25 / >65 / residentes / profissionais do espetáculo)
10 ABRIL – 3 MAIO 2026
Sex. e Sáb. 21h00 / Dom. 16h00
FORNO – Espaço Cultural
2635-317 Rio de Mouro – Sintra

texto MÁRIO CÉU TRIGO
fotografias TÂNIA CADIMA
encenação CAROLINA FIGUEIREDO
TEATRO — A classificar pela CCE
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